16/06/01



Entre o ruído arrepiante do esticar do elástico, o ranger metálico da fuselagem da nave e o cavo ronco do potente motor de 41 cavalos às 890 rpm (em ponto morto) eu só pensava para comigo:

- Será que o meu desodorizante está preparado para isto?

A questão era mais que pertinente, tanto mais que iria estar fechado por completo durante mais de 2 horas dentro da nave até chegar à Estação Espacial Mir, a minha primeira escala antes de passar para o controlo interplanetário de Marte e Cintura de Asteróides.

Sim. A cintura de asteróides foi anexada por Marte há já uns anos, depois da guerra das Malvinas cá em baixo.

Não, não estava. O meu desodorizante era dos mais baratos devido ao baixo orçamento para higiene e mesmo as cuecas que levava eram as únicas permitidas a bordo.

Por uma questão de asseio usava-as do avesso dia sim dia não.

Porco? Porco era usá-las sempre do mesmo lado...

Curiosamente ouvi dizer que após a minha passagem pela Mir, a estação caiu devido a uma série de explosões. Será que deixei o gás ligado?

Bem, mas adiante. Claro que a transpiração invadiu o confortável habitáculo e aqueles escassos minutos de tensão foram horas.

Ainda por cima a BMC'78 não estava preparada com ar condicionado, acessório que os fabricantes de naves de gama baixa insistem em nunca incluir de série nos seus modelos.

...E depois, como toda a gente sabe, não se pode abrir a janela no Espaço. Faz um frio do caraças e a nave anda menos por causa do atrito. Bem, era o ventilador no máximo quando dava, porque assim que o motor do aparelho começava a aquecer, lá tinha de ligar a sofagem para ajudar a dissipar o calor.

Felizmente, mais tarde aprendi que o suor depois de condensado no vidro na nave dava para beber, matando assim três coelhos de uma só vez.

Por um lado reaproveitava a minha própria água purificada através da destilação corpórea. Depois alimentava-me dos nutrientes em excesso que eliminava pela transpiração, processo a que chamei de Ciclo da Ãgua.

Sim. Já havia o Ciclo da Água, não podia dar à minha descoberta o mesmo nome, então num rasgo de originalidade chamei-lhe Ciclo da Ãgua.

Por último, lavava as janelas da nave ao lamber a água directamente dos vidros. De génio, não?

Pois. Por isso mesmo é que só os mais espertos vão para o Espaço.

Finalmente o lançamento lá cedeu com sucesso e antes do previsto.

Isso mesmo. O elástico cedeu...



Startreta 10.12.01 Sector Alip Ednarg



Após vários meses sem comunicação com o pessoal da terra (Loures), devido a encontrar-me não só na face oculta de Marte, mas também em hibernação, sinto-me agora o ser mais solitário do universo.

Nada disto é como eu esperava. O mundo é pequeno. Visto daqui de cima então...

Vejam só: Ontem, numa estação orbital marciana, encontrei muita gente conhecida. A Lili Caneças, a Filipa Garnel (sem Paulo Pires), o Leonard Nimoi, o Carlos Carvalhas, o fadista Paulo Bragança (convém dizer que ele é fadista porque a gente mal se apercebe de que aquilo que ele canta é fado), o Engº Sousa Veloso, a Margarida Martins (um abraço!), a Fátima de Campos Ferreira, entre outros que não conheço. Só lá faltava a Júlia Pinheiro, mas essa é correspondente em Portugal.

Enfim, a malta pelos vistos junta-se toda por ali. Aquilo é dum Russo, o Vladsargetov, e tem dois moldavos a atender às mesas. Sítio de categoria, apesar da clientela.

Às tantas ficou tudo calado, assim subitamente, e eu sem perceber porquê. Lá estiquei o pescoço na direcção na qual todos olhavam e vi Deus.

Afinal Ele existe, e é tal e qual como nós o fizemos. É mesmo à imagem dele. De barbas meio grisalhas, afável, com o seu manto branco, a cumprimentar toda a gente. E ao que parece, era a primeira vez que lá estava, porque toda a gente dizia que andavam todos á procura dele há que tempos.

Foi aí que vi que era mesmo Deus. Há dois mil anos que andamos a ver se o vemos, não é?

Ficámos amigos e já sei tudo sobre Ele. Chama-se Ossama, daí a música "Óssama... Óssama... Óssama nas alturas..." que se canta na Igreja. Fala é mal português como o caraças. E tem sotaque Algarvio (também deve ser moldavo).

Na sua divina bondade deu-me um saquito de farinha, com o qual simbolicamente farei o famoso Pão de Deus. E calha bem que seja eu a fazer o panito, porque até à data, nesta jornada a Júpiter, só tenho comido o pão que o Diabo amassou.

Sei que o mundo dá muitas voltas, e perguntei-lhe humildemente:

- Então como é que vieste cá parar, pá?

Deve ter vindo naqueles autocarros da Carris com bancos laterais, e lá disse no seu algarvio:

- Ossama Bin Laden

Veio de lado, portantos.



Startreta 14.12.01 Sector Atiag Atruc



Olá amigos! Isto hoje é rápido.

Aqui estou eu com mais um relato sobre tudo aquilo que vou vendo neste mundo maravilhoso que é o Espaço. Pois é. Esta semana tive uma agradável surpresa. Tive oportunidade de viajar num teletransportador de matéria. Já existe aqui no espaço, e devo dizer-vos que, uma vez mais, Portugal é pioneiro do que toca a novas tecnologias.

Propuseram-me uma viagem desde o asteróide Atert (onde está montado um terminal) até Lisboa, na Praça do Município (onde está montado o outro). Coisa de categoria, diga-se de passagem. Aproveitei e passei uma semanita cá na Terra. Assim, sem interromper a viagem, pude ir ver a minha caixa de correio.

Entretanto, conheci o Darth Vader. Está completamente diferente, fez uma plástica e ficou bem melhor. Agora parece um cruzamento entre o João Vilaret e o Dr. Mário Soares, um pouco mais novo. Da última vez que o vi, estava a entrar no terminal de teletransporte, a dizer que ia conquistar Lisboa e que a seguir era a minha rua. Fosga-se! Ainda bem que sou de Loures. Sabe-se lá os estragos que isto pode dar.

E pronto, já retomei a viagem, a máquina está a comportar-se muito bem, vou agora em direcção à cintura de asteróides, ao que parece é uma zona um pouco mal frequentada. Piratas, malta do futebol, políticos, etc. Tudo passa por ali. E depois, a paisagem é tipo Palestina. Pedras e mais pedras, e eu, se não ponho a cabeça para dentro, ainda saio daqui com uma faixa de gaze.